A fórmula ficou estranha? Vamos desenhar isso.
Fórmula, tabela, gráfico e frase: porque ajuda ver a mesma ideia de várias formas e como ler numa parábola o vértice, os zeros e a monotonia.
Há um momento, algures no 10.º ano, em que g(x) = (x − 2)² − 1 aparece no quadro e metade da turma pensa: «isto anda dois para a esquerda, certo?» Não anda. E a forma mais rápida de perceber porquê raramente é decorar mais uma regra. Costuma ser fazer uma tabela pequena e um desenho à mão. Este artigo é sobre isso: porque é que olhar para a mesma ideia de quatro maneiras ajuda, e como ler o gráfico de uma função quadrática sem pânico, nem na véspera do teste.
Quatro maneiras de dizer f(x) = x²
A função f(x) = x² pode aparecer-te de quatro formas. Como fórmula, claro. Como tabela: para x = −2, −1, 0, 1 e 2, os valores são 4, 1, 0, 1 e 4. Como gráfico: uma parábola com o ponto mais baixo na origem. E como frase: «a cada número faz corresponder o seu quadrado, por isso o resultado nunca é negativo».
Cada uma mostra uma coisa diferente. A tabela deixa ver a simetria (4, 1, 0, 1, 4 lê-se igual dos dois lados). O gráfico mostra a função a descer e depois a subir. A frase explica porque não há valores abaixo de zero. A fórmula é a única que te dá qualquer valor em segundos: f(1,5) = 2,25, sem desenhar nada.
Isto não é capricho de quem escreve testes. As Aprendizagens Essenciais de Matemática A do 10.º ano pedem que se trabalhem as funções com tabelas, gráficos e expressões analíticas, e que as funções quadráticas se estudem «gráfica e analiticamente». A matéria está desenhada para saltares de uma representação para outra.
Porque é que a mesma ideia, desenhada, se percebe melhor
Richard Mayer passou anos a testar explicações com e sem imagens, por exemplo sobre a forma como se formam os relâmpagos. Chamou ao resultado princípio multimédia: aprende-se melhor com palavras e imagens juntas do que só com palavras. Nas experiências que reuniu, quem recebia as duas coisas resolvia melhor problemas novos, e o ganho parecia maior em quem sabia menos do tema.
Shaaron Ainsworth, que estuda a aprendizagem com múltiplas representações, ajuda a perceber o mecanismo e também o preço. Várias representações podem completar-se (cada uma mostra o que a outra não mostra), uma pode ajudar a interpretar a outra (o gráfico dá sentido à fórmula) e, quando o aluno as relaciona, a compreensão fica mais profunda. O preço é que isso dá trabalho: é preciso perceber cada representação e a forma como se ligam, e essa ligação não acontece sozinha.
Acontece muito: o aluno sabe fazer a tabela e sabe desenhar a parábola, mas não liga o 4 da tabela ao ponto (2, 4) do gráfico. O trabalho que vale a pena é essa tradução: apontar para um número e dizer «é aquele ponto ali».
Se f(x) = x², quanto vale f(−2)?
No quadro, a Explica fica com o exercício escrito e espera que carregues em enviar. Há perguntas grátis para experimentar.
Como ler o gráfico de uma função quadrática
Lê o gráfico da esquerda para a direita, como uma estrada. Em f(x) = x², a estrada desce até x = 0 e sobe a partir daí. Em linguagem de teste: f é decrescente em ]−∞, 0] e crescente em [0, +∞[.
O ponto onde a estrada muda de sentido é o vértice, aqui (0, 0). Como a concavidade está voltada para cima (o coeficiente de x² é positivo), o vértice é um mínimo: o valor mínimo é 0. A reta vertical que passa por ele, x = 0, é o eixo de simetria.
Os zeros são os pontos onde a parábola toca ou corta o eixo das abcissas, ou seja, onde f(x) = 0. Em x² só há um, x = 0. E o contradomínio, os valores que a função atinge, é [0, +∞[.
Fica com esta lista para qualquer parábola: concavidade, vértice, eixo de simetria, zeros, onde decresce e onde cresce, contradomínio. Respondidas estas seis perguntas, o gráfico está lido.
E quando a parábola muda de sítio
Volta a g(x) = (x − 2)² − 1 e faz a tabela para x = 0, 1, 2, 3 e 4. Dá 3, 0, −1, 0 e 3. Repara no padrão: é o 4, 1, 0, 1, 4 de x², com cada valor uma unidade abaixo e tudo deslocado duas casas para a direita. A forma da parábola é a mesma, só que o vértice passou para (2, −1). Na linguagem das transformações geométricas, é uma translação associada ao vetor (2, −1).
Porque é que vai para a direita, se lá dentro está um menos? Em x², o valor mais baixo aparece quando x = 0. Em (x − 2)², para o parêntese dar 0 precisas de x = 2. A função chega ao mesmo valor «mais tarde», ou seja, mais à direita. Com a tabela à frente, já não há regra para decorar: vê-se.
Agora lê o gráfico de g: decresce em ]−∞, 2], cresce em [2, +∞[, tem mínimo −1, zeros 1 e 3 e contradomínio [−1, +∞[. E há um bónus. Se desenvolveres, (x − 2)² − 1 = x² − 4x + 4 − 1 = x² − 4x + 3, que também se escreve (x − 1)(x − 3). É a mesma função em três formas: uma mostra o vértice, outra mostra os zeros e a terceira mostra que o gráfico corta o eixo das ordenadas em 3. Até dentro da álgebra as representações se completam.
Como treinar este olhar
Sempre que te aparecer uma função nova, faz três coisas rápidas: uma tabela com cinco valores, um esboço à mão e uma frase. Por exemplo: «decresce até 2, cresce depois e nunca fica abaixo de −1». Se não consegues escrever a frase, ainda há uma ligação por fazer.
A calculadora gráfica e o GeoGebra ajudam muito, e as próprias Aprendizagens Essenciais recomendam a tecnologia gráfica. O truque é prever antes de carregar no botão: esboça primeiro, confirma depois. No quadro da ExplicaJá podes fazer a tua tabela e o teu esboço e pedir à Explica que percorra contigo, passo a passo, o vértice, os zeros e a monotonia. Ela também se pode enganar: se alguma coisa não bater certo com a tua tabela, pede-lhe que reveja.
Perguntas frequentes
Como se encontra o vértice de uma parábola?
Se a função estiver na forma a(x − h)² + k, o vértice é o ponto (h, k). Se estiver na forma ax² + bx + c, a abcissa do vértice é x = −b/(2a) e a ordenada obtém-se substituindo esse valor na função. Em x² − 4x + 3, x = 4/2 = 2 e f(2) = −1, logo o vértice é (2, −1).
O que quer dizer uma função ser crescente ou decrescente num intervalo?
Uma função é crescente num intervalo se, quando x aumenta, os valores de f(x) também aumentam; é decrescente se diminuem. No gráfico, lido da esquerda para a direita, crescente sobe e decrescente desce. Numa parábola com a concavidade voltada para cima, a função decresce até ao vértice e cresce a partir dele.
Porque é que f(x − 2) desloca o gráfico para a direita e não para a esquerda?
Porque o que f fazia em x = 0 passa a acontecer quando x − 2 = 0, ou seja, em x = 2. Todos os pontos do gráfico chegam duas unidades mais tarde, logo mais à direita. Uma tabela com alguns valores mostra isto melhor do que qualquer regra decorada.
Porque é que se estuda a mesma função em tabela, gráfico e fórmula?
Porque cada representação mostra aspetos diferentes: a tabela mostra valores e padrões, o gráfico mostra a monotonia e os extremos, a fórmula permite calcular qualquer valor. A investigação sobre múltiplas representações mostra que relacioná-las ajuda a construir uma compreensão mais profunda, e as Aprendizagens Essenciais de Matemática A pedem esse trabalho no 10.º ano.
De onde vem o que dissemos
- Ainsworth, S. (2006). DeFT: A conceptual framework for considering learning with multiple representations. Learning and Instruction, 16(3), 183–198.Propõe um quadro para pensar a aprendizagem com várias representações: as funções que cumprem e as tarefas que exigem ao aluno; usamo-lo para explicar porque ligar fórmula, tabela e gráfico ajuda e dá trabalho.
- Mayer, R. E. (2009). Multimedia Principle. In Multimedia Learning (2.ª ed., pp. 223–241). Cambridge University Press.Reúne experiências em que palavras e imagens juntas levaram a melhor resolução de problemas novos do que só palavras, com ganhos maiores em quem sabia menos; é a base da secção sobre desenhar a matéria.
- Direção-Geral da Educação (2023). Aprendizagens Essenciais de Matemática A, 10.º ano, Ensino Secundário. Ministério da Educação.Pede o estudo das funções com tabelas, gráficos e expressões analíticas, das funções quadráticas gráfica e analiticamente e das translações a partir de x²; mostra que esta forma de olhar faz parte do currículo.
No currículo: Matemática A, 10.º ano. Funções quadráticas.
