ExplicaJá
Estudar para testes

Baralha os exercícios: custa mais, mas é o que o teste pede

Fazer vinte exercícios iguais seguidos sabe bem, mas no teste ninguém te diz qual é o método. Misturar custa mais e ensina a escolher. Vê como.

Equipa ExplicaJá6 min de leitura

MISTURA, E ESCOLHE O MÉTODOx² − 7x + 12 = 0→ fatorizarx = 3 ou x = 42x − 3 > 5→ isolar o xx > 4f(x) = −x² + 4→ vértice(0, 4)qual é o método?
Cartões de exercícios baralhados no quadro: uma equação, uma inequação e um problema de funções, cada um com o método escolhido.

TPC de Física: vinte exercícios de queda livre. O primeiro custa, o quinto já sai sozinho, o vigésimo faz-se a pensar no jantar. Sabe bem, parece progresso. Depois chega o teste e o enunciado não diz «queda livre» em lado nenhum. Diz que uma pedra cai de uma varanda, que um carro trava antes da passadeira, que outro dá a volta a uma rotunda. A parte mais difícil de cada exercício, perceber que tipo de problema tens à frente, foi a única que nunca treinaste. É aqui que entra uma ideia com nome pouco simpático e resultados bastante simpáticos: a prática intercalada.

Vinte iguais seguidos: porque parece que estás a aprender

Fazer muitos exercícios do mesmo tipo de seguida chama-se prática em bloco, e é assim que estão organizadas quase todas as fichas: matéria nova, exercícios dessa matéria. Tem uma vantagem óbvia, porque o método está fresco e cada exercício sai mais depressa do que o anterior. O problema é discreto. Já sabes qual é o método antes de leres o enunciado, por isso nunca tens de o escolher. No quadro vemos muitas vezes o mesmo filme: o aluno sabe as fórmulas todas e, perante um enunciado sem título, agarra-se à primeira que lhe vem à cabeça.

Elizabeth e Robert Bjork (2011) explicam porque é que isto engana tanta gente. Separam o desempenho, aquilo que se vê durante o treino, da aprendizagem, aquilo que fica e se consegue usar mais tarde. E avisam que o desempenho durante a prática pode ser um indicador muito pouco fiável: as condições que fazem os resultados subir depressa no treino muitas vezes não são as que deixam a matéria guardada para depois.

A Explica meteu-se na conversaVinte exercícios iguais seguidos treinam muito bem uma coisa: voltar a fazer o exercício anterior.

O que acontece quando se baralham os exercícios

Doug Rohrer e Kelli Taylor (2007) ensinaram estudantes universitários a calcular o volume de quatro sólidos pouco conhecidos. Todos fizeram os mesmos exercícios, só mudava a ordem: uns em blocos, quatro problemas do mesmo sólido seguidos, outros com os quatro tipos baralhados. Durante a prática, quem fazia em blocos acertou em média 89%, e quem misturava ficou pelos 60%. Uma semana depois, no teste, as posições inverteram-se: 63% para quem misturou, 20% para quem treinou em blocos.

O pormenor mais interessante é o porquê. Os autores contaram quantas vezes um aluno escreveu a fórmula certa e errou a conta, e isso quase nunca aconteceu. Quem treinou em blocos falhou sobretudo porque não sabia que fórmula usar em cada problema. Sabia fazer as contas; faltava-lhe saber escolher.

Esse estudo foi feito num laboratório e com poucos participantes. O seguinte foi numa escola a sério. Rohrer, Dedrick e Stershic (2015) acompanharam 126 alunos de 12 anos, do equivalente ao nosso 7.º ano, numa escola da Flórida, durante três meses e com os professores habituais. Os exercícios eram os mesmos para todos; só mudava a forma como estavam distribuídos pelas fichas de trabalho. Num teste-surpresa um dia depois da revisão final, a prática intercalada deu 80% contra 64%. Trinta dias depois, deu 74% contra 42%.

30 segundos. A tua vez.Sem nota, sem cronómetro

Um carro dá a volta a uma rotunda de raio 25 m, sempre a 10 m/s. Qual é a aceleração do carro?

Sem pressa. Eu espero, sou muito boa nisso.

No quadro, a Explica fica com o exercício escrito e espera que carregues em enviar. Há perguntas grátis para experimentar.

Porque é que misturar parece pior (e porque é que isso engana)

Nate Kornell e Robert Bjork (2008) fizeram uma experiência que não tem nada de Matemática. Mostraram seis pinturas de cada um de doze pintores, umas vezes agrupadas por pintor, outras misturadas. Depois apareciam quadros novos e era preciso dizer quem os tinha pintado. Misturar ajudou mais. A parte mais curiosa veio no fim: 78% dos participantes tiveram melhores resultados com as pinturas misturadas, mas 78% disseram que agrupar tinha sido tão bom ou melhor, mesmo depois de terem feito o teste.

É o mesmo que se passa com a ficha de queda livre. A fluidez sabe a aprendizagem. Os Bjork chamam dificuldades desejáveis a estas condições que tornam o treino mais lento e trabalhoso, mas deixam mais a longo prazo: variar as condições de estudo, intercalar temas, espaçar as sessões e testar-te em vez de reler.

A palavra que conta é «desejáveis». Os mesmos autores avisam que uma dificuldade só ajuda se tiveres a base para lhe responder; sem ela, é só uma dificuldade. Misturar faz sentido depois de teres aprendido cada método, não no dia em que o vês pela primeira vez. Kornell e Bjork até encontraram uma tarefa, adivinhar uma palavra a partir de pistas, em que agrupar funcionou melhor: nenhuma técnica serve para tudo.

Como fica na prática: quatro movimentos do 11.º ano

Imagina estes quatro exercícios na mesma folha. Um ciclista mantém 5 m/s em linha reta durante 60 s: que distância percorre? Um carro a 20 m/s trava com aceleração constante e para em 4 s: que distância percorre a travar? Uma pedra cai de 20 m de altura, sem resistência do ar e com g = 10 m/s²: quanto tempo demora a chegar ao chão? Um carro dá a volta a uma rotunda de raio 25 m sempre a 10 m/s: qual é a sua aceleração?

O primeiro trabalho, antes de qualquer fórmula, é decidir que movimento é cada um. O ciclista está em movimento retilíneo uniforme, por isso d = v × t = 5 × 60 = 300 m. O carro que trava tem movimento retilíneo uniformemente variado: a = (0 − 20) / 4 = −5 m/s², e a distância é 20 × 4 − ½ × 5 × 4² = 80 − 40 = 40 m. A pedra está em queda livre: 20 = ½ × 10 × t², logo t² = 4 e t = 2 s. O carro da rotunda fica para o desafio no fim do artigo, porque tem uma armadilha que só aparece quando os exercícios estão misturados.

Em Matemática A acontece o mesmo. Uma equação do 2.º grau, uma inequação do 2.º grau e um problema sobre uma função quadrática parecem da mesma família, e é por isso mesmo que se trocam no teste. Misturá-los obriga-te a fazer a pergunta certa antes de começar: isto pede valores de x, um intervalo, ou uma leitura do gráfico?

Um plano para esta semana

Primeiro aprende cada tipo de exercício em separado, até conseguires fazer um sem ajuda. Depois junta exercícios de capítulos diferentes, tapa os títulos e baralha a ordem. As fichas de matéria da ExplicaJá de Física e Química A do 11.º ano têm exercícios para praticar e questões ao estilo de exame, que servem bem para isto. Antes de resolver cada um, escreve numa linha que tipo de problema é e como o reconheceste.

Conta com uma sessão mais lenta e com mais erros do que o costume. Isso não quer dizer que estejas a estudar pior: é o efeito que estes estudos descrevem. Se encalhares num exercício, leva-o para o quadro e pede à Explica que te explique passo a passo, ou chama um professor se houver um online. Se o teste é daqui a duas semanas, um plano de estudo ajuda a espalhar estas sessões em vez de as juntar todas na véspera.

Os estudos sobre prática intercalada foram feitos sobretudo com Matemática e com tarefas de distinguir categorias, e falta testá-la com mais matérias e em mais escolas. O que mostram com bastante consistência é que, quando o teste mistura tipos de problemas, vale a pena o treino também misturar.

Perguntas frequentes

O que é a prática intercalada?

É estudar alternando tipos de exercícios diferentes na mesma sessão, em vez de fazer muitos exercícios iguais seguidos. Por exemplo, numa folha de Física misturar movimento uniforme, movimento uniformemente variado, queda livre e movimento circular. Obriga a identificar o tipo de problema antes de escolher o método.

Misturar exercícios funciona mesmo melhor do que fazer muitos do mesmo tipo?

Em vários estudos, sobretudo de Matemática, a prática intercalada levou a melhores resultados em testes feitos uma semana ou um mês depois, apesar de dar piores resultados durante o treino. Num estudo com 126 alunos de 12 anos, a diferença trinta dias depois foi de 74% contra 42%. Não é garantia de nota, e funciona melhor depois de cada método estar aprendido.

Quando devo começar a misturar exercícios?

Depois de teres aprendido cada método em separado e de conseguires resolver pelo menos um exercício de cada tipo sem ajuda. Misturar no primeiro contacto com a matéria tende a ser só confuso. A mistura serve para treinar a escolha do método, não para o aprender do zero.

Porque é que estudar assim parece mais difícil?

Porque deixa de haver o atalho de saber o método antes de ler o enunciado, e cada exercício obriga a decidir. Os investigadores chamam a isto uma dificuldade desejável: torna o treino mais lento, mas ajuda a reter e a aplicar a matéria mais tarde. O desempenho durante o treino não é um bom indicador do que fica aprendido.

De onde vem o que dissemos

  1. Rohrer, D., & Taylor, K. (2007). The shuffling of mathematics problems improves learning. Instructional Science, 35(6), 481–498.Com os mesmos exercícios de volumes, a prática em blocos deu 89% contra 60% durante o treino, mas uma semana depois a prática misturada deu 63% contra 20%; base da secção sobre baralhar exercícios.
  2. Rohrer, D., Dedrick, R. F., & Stershic, S. (2015). Interleaved practice improves mathematics learning. Journal of Educational Psychology, 107(3), 900–908.Em 126 alunos do 7.º ano, durante três meses e com os professores habituais, a prática intercalada deu 80% contra 64% um dia depois e 74% contra 42% trinta dias depois; mostra que o efeito aparece numa sala de aula real.
  3. Kornell, N., & Bjork, R. A. (2008). Learning concepts and categories: Is spacing the "enemy of induction"? Psychological Science, 19(6), 585–592.Misturar pinturas de doze pintores ajudou a reconhecer estilos, mas a maioria dos participantes achou que agrupar tinha sido melhor; usamo-lo para explicar porque é que misturar parece pior.
  4. Bjork, E. L., & Bjork, R. A. (2011). Making things hard on yourself, but in a good way: Creating desirable difficulties to enhance learning. Em M. A. Gernsbacher, R. W. Pew, L. M. Hough, & J. R. Pomerantz (Eds.), Psychology and the real world: Essays illustrating fundamental contributions to society (pp. 56–64). Worth Publishers.Define dificuldades desejáveis (variar, intercalar, espaçar, testar), distingue desempenho de aprendizagem e avisa que uma dificuldade só ajuda se houver base para lhe responder.

No currículo: Física e Química A, 11.º ano. Forças e movimentos.

Conheces alguém que precisa de ler isto?
Enviar no WhatsApp

A conversa continua

O TESTE É AMANHÃ1Tentarsem consultar2Reversó o que falhou3Voltara tentare depois: dormir.21:40
Estudar para testes

O teste é amanhã. Por onde começo?

Pouco tempo e matéria a mais? Tenta primeiro sem consultar, escolhe as dúvidas que contam, faz um plano pequeno e vai dormir. Explicamos porquê.

5 min de leitura
Dois alunos resolvem x² − 5x + 6 = 0 por fatorização no quadro e chegam a x = 2 ou x = 3, com a Explica a espreitar.
Aprender melhor

«Já percebi.» Boa. Agora a caneta é tua.

Seguir a resolução de outra pessoa dá a sensação de ter percebido. Tentar sozinho, explicar o passo e até falhar uma vez ensinam mais. Vê porquê.

6 min de leitura
Uma aluna corrige (x + 3)² = x² + 9 para x² + 6x + 9, ao lado de duas linhas certas: 2(x − 4) = 2x − 8 e x² − 9 = (x − 3)(x + 3).
Aprender melhor

Erraste uma conta. Não és um erro.

Uma cruz diz que algo falhou, mas não diz onde nem porquê. O que a investigação mostra sobre as correções que ajudam a aprender com os erros.

6 min de leitura
A melhor parte é experimentar

Agora, vamos para o quadro?

Pergunta à Explica a dúvida que te trouxe aqui, ou chama um professor. Há perguntas grátis para começar.

Experimentar a Explica