ExplicaJá
Estudar para testes

O teste é amanhã. Por onde começo?

Pouco tempo e matéria a mais? Tenta primeiro sem consultar, escolhe as dúvidas que contam, faz um plano pequeno e vai dormir. Explicamos porquê.

Equipa ExplicaJá5 min de leitura

O TESTE É AMANHÃ1Tentarsem consultar2Reversó o que falhou3Voltara tentare depois: dormir.21:40
Um plano de estudo em três passos no quadro: tentar sem consultar, rever a dúvida e voltar a tentar.

Quarta-feira, 21h40. O teste de Físico-Química é amanhã às 8h20, o caderno está aberto na primeira página e o plano é reler tudo até ao fim. Conhecemos bem esta noite, porque é muitas vezes a essa hora que os alunos aparecem no quadro da ExplicaJá, com quatro separadores abertos e cara de quem já perdeu a esperança. Respira. Não tens de fazer tudo hoje: basta escolher bem o que fazes nas próximas duas horas, e a investigação sobre como se aprende tem bastante a dizer sobre isso.

Porque é que reler tudo parece estudar (e engana)

Reler é confortável. As páginas parecem conhecidas, os esquemas fazem sentido, e ao fim de uma hora fica a sensação de que a matéria está arrumada. O problema é que reconhecer uma página e conseguir reproduzir o que lá está numa folha em branco são coisas diferentes, e o teste de amanhã pede a segunda.

Há uma experiência clássica sobre isto. Roediger e Karpicke deram a estudantes universitários pequenos textos sobre o Sol e sobre lontras-marinhas. Uns voltaram a ler o texto; outros tentaram escrever tudo o que se lembravam, sem olhar. Passados cinco minutos, quem tinha relido lembrava-se de mais. Passados dois dias e uma semana, o resultado inverteu-se: quem tinha tentado recordar retinha bastante mais. O pormenor mais curioso é que o grupo que releu estava mais confiante de que se ia lembrar.

Anos depois, Dunlosky e colegas analisaram dez técnicas de estudo muito usadas. Reler e sublinhar ficaram com utilidade baixa, porque não melhoram o desempenho de forma consistente. Os testes de prática (responder a perguntas sem consultar) e a prática espaçada ficaram com utilidade alta, por funcionarem com alunos de idades e níveis diferentes. A recomendação dos autores é simples: em vez de reler, testa-te.

A Explica meteu-se na conversaReler o caderno pela quarta vez não conta como quatro estudos. Já pedi a recontagem.

Primeiro tenta, só depois abre o caderno

Pega no teste do período passado, nos exercícios do fim do capítulo ou nas fichas que o professor deu. Escolhe três ou quatro e resolve-os sem consultar nada. Se a matéria for mais teórica, pega numa folha em branco e escreve tudo o que sabes sobre o tema, tal como os estudantes da experiência.

Os erros e os brancos são o teu mapa. Marca cada um com o que aconteceu: não me lembrava da fórmula, não sabia por onde começar, enganei-me na conta. São três dúvidas diferentes e pedem três revisões diferentes. A primeira resolve-se com uma flashcard, a segunda com um exemplo resolvido, a terceira com atenção e um segundo exercício.

Só agora abres os apontamentos, e vais direto à página de que precisas. Lês, percebes, fechas. Depois tentas outra vez sem ver. É esta segunda tentativa que te diz se a dúvida ficou mesmo resolvida.

30 segundos. A tua vez.Sem nota, sem cronómetro

Tens 20 minutos para rever antes de dormir. Por onde começas?

Sem pressa. Eu espero, sou muito boa nisso.

No quadro, a Explica fica com o exercício escrito e espera que carregues em enviar. Há perguntas grátis para experimentar.

Escolhe as dúvidas que valem pontos

Numa noite não cabe a matéria toda, e não faz mal. Faz uma lista curta: o que o professor disse que saía, o que aparece em todas as fichas, o que falhou na tua tentativa. Começa pelo que vale mais e está mais perto de ficar resolvido.

Um tropeção clássico: em x² − 4x − 5 = 0, o aluno sabe a fórmula resolvente, mas escreve −4 onde devia estar −b, que aqui é 4. Com o sinal certo, o binómio discriminante dá 16 + 20 = 36 e as soluções são x = 5 e x = −1. Isto é uma dúvida de dez minutos, e aparece em quase todos os testes. Já um capítulo inteiro que nunca percebeste dificilmente se resolve às onze da noite. Nesse caso, garante o que está ao teu alcance e marca essa matéria para depois do teste, com calma e com ajuda.

Um plano pequeno que cabe numa noite (ou em vários dias)

Para hoje, chega uma coisa assim: vinte minutos a tentar sem consultar, quarenta a rever as duas ou três dúvidas que apareceram, vinte a voltar a tentar sem ver, e dez minutos de flashcards com as definições que te fugiram. Pelo meio, uma pausa a sério, longe do telemóvel. É pouco, e é de propósito: um plano que se cumpre vale mais do que uma revisão heroica que fica a meio.

Se estás a ler isto com uma semana de folga, melhor ainda. Cepeda e colegas reuniram centenas de experiências sobre prática distribuída e concluíram que espalhar o estudo por várias sessões ajuda a reter mais do que concentrá-lo de uma vez. Concluíram também que o intervalo ideal entre sessões cresce com o tempo durante o qual precisas de te lembrar. Na prática, três sessões curtas em dias diferentes tendem a render mais do que uma tarde inteira na véspera. A maior parte desses estudos usou memorização de palavras e factos, por isso é uma boa regra geral e não uma lei para todos os exercícios.

Na ExplicaJá, os planos de estudo até ao teste servem para isto: repartir a matéria pelos dias que faltam, para que as dúvidas não fiquem todas para a véspera.

Dormir também conta como estudar

A tentação da direta é grande. Mas Rasch e Born, numa revisão extensa sobre sono e memória, descrevem mais de um século de investigação a mostrar que dormir ajuda a reter o que se aprendeu. A explicação que propõem é que, durante o sono, o cérebro volta a ativar as memórias recentes e as integra na memória de longo prazo. Trocar essas horas por mais uma leitura cansada é um mau negócio.

Antes de te deitares, faz um último teste rápido às dúvidas que trabalhaste e fecha o caderno. De manhã, no autocarro, tenta lembrar-te de cabeça das três ideias principais, sem abrir matéria nova. Nada disto garante uma nota. Ajuda a que chegues ao teste com a cabeça a funcionar e com a sensação de que usaste bem o tempo que tinhas.

Perguntas frequentes

Como estudar para um teste em pouco tempo?

Começa por resolver exercícios ou responder a perguntas sem consultar os apontamentos, para descobrir o que ainda não sabes. Revê só esses pontos e volta a testá-los sem ver. Este tipo de teste de prática está entre as técnicas com mais apoio na investigação, ao contrário de reler ou sublinhar.

O teste é amanhã: vale a pena fazer uma direta?

Em geral, não. A investigação sobre sono e memória mostra que dormir ajuda a consolidar o que se aprendeu durante o dia. É preferível estudar bem algumas dúvidas importantes, fazer um último teste rápido e dormir.

Reler os apontamentos é uma boa forma de estudar?

Reler dá uma sensação de familiaridade, mas numa revisão de dez técnicas de estudo ficou classificado com utilidade baixa. Numa experiência clássica, quem tentou recordar um texto sem olhar lembrava-se de mais dois dias depois do que quem o releu. Reler pode servir para tirar uma dúvida concreta, depois de tentares sozinho.

Quantos dias antes devo começar a estudar para um teste?

Não há um número mágico, mas espalhar o estudo por vários dias ajuda a reter mais do que concentrá-lo na véspera. Uma meta-análise sobre prática distribuída concluiu que o intervalo ideal entre sessões cresce com o tempo durante o qual precisas de te lembrar. Começar alguns dias antes, com sessões curtas, é um bom ponto de partida.

De onde vem o que dissemos

  1. Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4–58.Avaliou dez técnicas de estudo: testes de prática e prática espaçada com utilidade alta, reler e sublinhar com utilidade baixa. Usamo-la para explicar porque se deve tentar antes de reler.
  2. Roediger, H. L., III, & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249–255.Quem releu lembrava-se de mais ao fim de cinco minutos, mas quem tentou recordar sem olhar retinha bastante mais ao fim de dois dias e de uma semana, apesar de se sentir menos confiante. É a experiência que descrevemos na primeira secção.
  3. Cepeda, N. J., Pashler, H., Vul, E., Wixted, J. T., & Rohrer, D. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks: A review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 354–380.Meta-análise de 839 avaliações em 317 experiências sobre prática distribuída: espaçar ajuda a reter, e o intervalo ideal cresce com o tempo de retenção. Sustenta o conselho de espalhar o estudo quando há dias.
  4. Rasch, B., & Born, J. (2013). About sleep's role in memory. Physiological Reviews, 93(2), 681–766.Revisão que resume mais de um século de investigação a mostrar que o sono beneficia a retenção da memória, com consolidação ativa durante o sono. Usamo-la na secção sobre dormir antes do teste.
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